18 junho, 2006

Fomos ver a bola: O plenário continua amanhã

Já todos sabem que os deputados portugueses alteraram o horário da sessão plenária da próxima quarta-feira (dia 21) na Assembleia da República para poderem assistir à vontade ao jogo entre Portugal e o México, no campeonato do mundo de futebol. Todos os partidos políticos concordaram com esta iniciativa, que não é inédita. Segundo eles, é a única forma de evitar uma repetição do que aconteceu em Abril passado: os deputados tinham recebido tolerância de ponto na quinta-feira antes da Páscoa, mas a maioria deles fez um fim-de-semana mesmo muito prolongado e faltaram na quarta, inviabilizando as votações desse dia no Parlamento por falta de quórum. Nada de novo aqui. Neste Portugal os deputados fazerem ponte não é notícia – é sim quando eles NÃO fazem.

No entanto, a ideia inicial dos deputados não era apenas alterar o horário, mas sim anular por completo a sessão plenária da próxima quarta-feira – talvez seja essa a única forma de evitar que a maioria dos deputados falte sempre que haja um jogo de futebol à mesma hora do plenário. Ouvi isso numa entrevista realizada à repórter parlamentar da SIC Anabela Neves, no programa de rádio Prova Oral da Antena 3, onde ela disse que:

«Os deputados ainda pensaram em cancelar a sessão desse dia [21 de Junho], houve propostas nesse sentido. Mas tiveram o bom senso de evitar serem chacinados na praça pública…»

«Bom senso» esse unicamente devido ao facto do escândalo da falta de quórum ser ainda muito recente. Pouco depois, uma ouvinte entrou em directo nesse programa e exprimiu o seu desagrado:

«Márcia (ouvinte) – Não concordo minimamente com essa situação dos deputados irem ver futebol. Este país é o paraíso de todos os funcionários públicos, e não só. Há pessoas que trabalham por contra de outrem ou por conta própria, que também gostariam de estar a ver futebol e a selecção, mas não vão poder…

Anabela Neves – Diga-me só uma coisa, tem a certeza que não vão estar a ver? Vai estar toda a gente! Nós temos de ser sinceros com estas coisas, não é? É à tarde, às 15 horas, arranjam-se umas televisões no trabalho…»

Será mesmo verdade que todos os portugueses conseguirão ver o jogo em directo? A jornalista continua:

«A sociedade portuguesa é muito curiosa: é extremamente severa com os deveres alheios, mas muito laxista em relação aos próprios deveres. Sinceramente não valorizo esta questão, porque o trabalho dos deputados não é todo feito dentro do plenário. Há alguns que vão lá e não estão a fazer nada, isso eu sei que há, mas há muitos que estão a trabalhar.»

Bem, quando os deputados chegam a ponderar cancelar a sessão plenária por quererem ir ver um jogo de futebol, fica no ar de que tipo é o trabalho deles. De resto, foi o próprio Narana Coissoró, ex-deputado do Partido Popular e antigo vice-presidente da Assembleia da República, que disse isto na TSF:

«Quem lida com o Parlamento sabe que há determinados dias em que os acontecimentos levam as pessoas a faltarem. Por exemplo, não se pode marcar uma votação por exemplo, quando o Benfica-Barcelona estava a jogar, ou quando há um acontecimento grande que as pessoas querem ver.»

Já agora – por «pessoas», entende-se deputados. O português comum gosta de futebol, mas não falta a um dia de trabalho sempre que haja um jogo – do seu clube favorito ou da selecção – que coincida com o horário de trabalho. Mas tudo bem. Na realidade esta questão, para mim, é-me completamente indiferente. Eles podem fechar a Assembleia da República sempre que haja um jogo de futebol, uma ponte, um aniversário, uma festa ou um churrasco – o facto é que isso não afectaria em nada o estado real do país.

Ou podem mesmo fechá-la definitivamente. Ninguém daria pela diferença.

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