18 outubro, 2006

O Medo de Salazar

No início deste mês, a RTP lançou o programa Os Grandes Portugueses, onde nos convida a «eleger a personalidade mais marcante da História de Portugal». Abrem um site oficial onde incluem «uma lista de sugestões/exemplos apenas para informação», garantindo-nos que podemos votar em qualquer português, mesmo nos que não estão na lista. Também prometem isenção, com um sistema de votação auditado pela PricewaterhouseCoopers. Entretanto, a meio do mês, a RTP resolve incluir mais nomes nessa lista de sugestões, entre os quais o de António de Oliveira Salazar. O drama, o horror! Esquerda e direita gritam em uníssono contra esta ousadia inominável. Alguns “intelectuais” apelam ao protesto massivo junto do Provedor da RTP. Pacheco Pereira, por exemplo, vasculhou o seu velho baú, e encheu o seu blogue com o pior que conseguiu encontrar sobre o Estado Novo.

Ao escrever estas linhas, estou a ser o mais imparcial possível. As minhas perguntas são: O que temem? Estes políticos querem manter para eles a exclusividade de seleccionar as pessoas nas quais os portugueses podem votar? A censura já é aceitável, desde que praticada por eles? Os portugueses não conseguem escolher por eles próprios? Não podemos pensar por nós próprios? Porquê tanto pânico em torno da figura de Salazar? Haverá algo que não saibamos sobre ele, ou o Estado Novo? É segredo, tabu? Porquê esse medo?

Será o medo de serem comparados com Salazar?

Falam de censura, de ausência de Estado de Direito, de perseguições políticas, mas será que este regime está isento delas? Ou será que, pelo contrário, sob a bandeira da “liberdade”, se cometeram nestes últimos 30 anos os maiores atentados à liberdade de informação, ao Estado de Direito, ao direito à dignidade e até ao trabalho? É necessário dar exemplos? Ou será precisamente a nossa memória que alguns querem manipular?

Salazar, que faleceu há quase quarenta anos atrás com uns míseros trocos na sua conta bancária, é considerado por muitos um “ditador sanguinário”. No entanto, os que o descrevem dessa forma são geralmente os mesmos que ocultam as maiores violências, quer sejam as resultantes do ainda recente ódio comunista, quer as que vemos agora praticadas pelo actual império hegemónico.

Ontem (dia 17) foi o Dia Internacional da Erradicação da Pobreza. Voltei a ouvir que 21% da população portuguesa, cerca de dois milhões, sobrevive no limiar da pobreza. Voltei a ouvir que Portugal é o país da Europa com maior desigualdade entre ricos e pobres, e que essa desigualdade aumenta a cada dia que passa. Voltei a ouvir que os impostos e o custo de vida vão subir, mas que as pensões vão baixar (até acabarem de vez, o que poderá acontecer dentro de poucos anos). Voltei a ver mais casos de censura e manipulação na comunicação social (algum português soube, por exemplo, que a União Europeia voltou à carga pelo controlo total de conteúdos na Internet?). A culpa é de Salazar?

Esses que têm medo de Salazar fariam melhor em terem mais cuidado, porque no nosso mundo nada é mais incerto do que o futuro. E um dia, não direi um Salazar, nem um Sidónio, mas talvez alguns homens simples e justos ponham fim à bandalheira e venhamos a concluir que não há prisões que cheguem para tantos criminosos e encobridores.

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